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29 de agosto de 2007

“ABRASILEIRAMENTO” DO PORTUGUÊS OU REFORMA LINGÜÍSTICA?

Acompanhem a entrevista do Prof. Dr. Luiz Carlos Cagliari sobre a possível reforma da ortografia do português em todos os países falantes da língua para 2008.

Vejam o que seria essa reforma e a posição do professor diante dessa uniformização da ortografia, adianto que concordo com ele em muitos dos aspectos colocados. E você leitor?

Sobre esse mesmo tema dêem uma olhadinha nesse bem humaroado e criativo texto postado no Quadrideko (clique aqui) - adicionado em 2/9/07

Ruídos lingüísticos (com trema, por enquanto)
29/08/2007

Por Fábio de Castro


(Luis Carlos Cagliari)
Agência FAPESP – O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado em 1990 para uniformizar o registro escrito nos oito países que falam o idioma: Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, Timor Leste e São Tomé e Príncipe.
A implementação do acordo, adiada diversas vezes desde 1994, poderá ocorrer a partir de janeiro de 2008 nos três países da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) que já ratificaram o protocolo: Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Facilitar o processo de intercâmbio cultural e científico entre os países e garantir a divulgação mais ampla do idioma são os principais objetivos da unificação ortográfica que, entre outras decisões, elimina o acento circunflexo em palavras paroxítonas terminadas em “o” duplo (como “vôo” e “enjôo”), extingue o trema e inclui as letras K, Y e W no alfabeto.
Para o Ministério da Educação brasileiro, a divergência de ortografias do português prejudicaria sua divulgação e prática em eventos internacionais. As mudanças necessárias em livros escolares e arquivos de editoras seriam compensadas pela atenuação do alto custo da produção de diferentes versões de dicionários e livros.
Mas a resistência é grande em alguns meios, principalmente em Portugal, onde haveria o maior impacto na língua – com o acordo, desaparecem o “c” e o “p” não pronunciados, como em “acção” e “baptismo”. Os portugueses precisarão também trocar a grafia de “húmido” por “úmido”.
Para alguns especialistas, a reforma traria benefícios desproporcionalmente pequenos em relação às dificuldades que representaria. “Em uma reforma, ninguém ganha e muitos perdem”, afirmou Luiz Carlos Cagliari, professor do departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara.
Para o professor, a reforma é desnecessária e se fundamenta em um grande desconhecimento da natureza, das funções e dos usos da ortografia. Especialista em fonética e fonologia, Cagliari publicou 11 livros e atua na pesquisa em sistemas de escrita, prosódia, ortografia e na história da ortografia da língua portuguesa.


Agência FAPESP – Há base científica para as modificações contempladas pelo acordo?
Luiz Carlos Cagliari – As reformas ortográficas têm sido feitas sem o conhecimento científico do que vem a ser a ortografia. Desse erro original deriva uma série de equívocos. Mas a questão fundamental não é se as mudanças serão feitas em determinadas regras. O fundamental é saber se há necessidade de mudança. Os argumentos dados para justificar uma reforma como essa são, em geral, falhos.

Agência FAPESP – Poderia dar exemplo desses argumentos?
Cagliari – Um deles é “facilitar o uso da língua”. Mudar a ortografia não facilita a vida de ninguém, porque a ortografia não representa a fala de ninguém. É simplesmente uma representação gráfica que permite a leitura. Não vou ler Camões na pronúncia dele, mas na minha. Como todos fazem isso, a ortografia não representa a pronúncia de ninguém.

Agência FAPESP – A unificação não facilitaria a comunicação diplomática entre os países?
Cagliari – Unificar a ortografia é um equívoco. Apesar de seguir regras de uso, tiradas de uma tradição, a ortografia, como a linguagem em geral, sofre transformações no tempo e no espaço. A história da ortografia mostra que a escrita se transforma continuamente. Veja, por exemplo, os corretores ortográficos dos computadores, que apresentam variação de opções de ortografias regionais para línguas como o inglês e o francês, ambas tradicionais. O inglês tem uma ortografia britânica e outra americana, ambas tradicionais. Então, por que precisamos ter apenas um modelo? O problema diplomático atinge somente a língua portuguesa? Ou é um falso problema?

Agência FAPESP – Alguns críticos dizem que a reforma forçará uma mudança em todos os livros didáticos, dicionários e arquivos de editoras, mas que seria uma reforma superficial, que não chegaria a cumprir o objetivo de padronizar a língua.
Cagliari – A idéia de simplificar a ortografia é uma ilusão desse tipo de reforma ortográfica. Talvez a única simplificação seja a abolição do trema – que ainda terá exceção. Isso não representa grande coisa. Na realidade, não precisaríamos de sinal algum além das letras. Nem acento, nem trema. O inglês não tem sinais diacríticos e não cria problemas aos usuários.

Agência FAPESP – A reforma só faria sentido, então, se fosse mais profunda?
Cagliari – Há grandes confusões nas bases ou regras da língua, com relação ao hífen, por exemplo. Poderia haver apenas uma regra que dissesse que as palavras compostas por composição levam hífen e as compostas por derivação não levam. O uso de acento gráfico em português também gera confusão. Há um número enorme de regras, todas desnecessárias, porque o falante sabe onde cai o acento nas palavras e quais vogais são abertas ou fechadas. Tirar uma regra ou outra não muda muito.

Agência FAPESP – As dificuldades de implantação da reforma são grandes demais comparadas aos benefícios?
Cagliari – Venho dizendo há décadas: o melhor é não mexer na ortografia, não fazer leis, deixar a tradição – recomendada pelos dicionários, gramáticas, vocabulários ortográficos – fazer sua história. Hoje, temos que lidar com e ler muitos documentos antigos, escritos em outras ortografias, e nada disso perturba, nem mesmo os juristas, que precisam desses documentos para se pronunciar em processos.

Agência FAPESP – A ortografia deveria se basear na tradição e não em leis?
Cagliari – Seria melhor. Os usuários agem da seguinte forma: ou sabem escrever – e o fazem com certeza – ou têm dúvidas. Nesse caso, não adianta pensar, a solução é olhar no dicionário e não ficar procurando regras nas gramáticas. As regras, estudadas apenas em alguns momentos da escola, ajudam. Mas, na hora da dúvida ortográfica, o que salva os usuários comuns não são as regras, mas o conhecimento de outros fatores, como a etimologia e a comparação.

Agência FAPESP – Entre as mudanças propostas, quais o senhor considera mais impactantes? Nenhuma delas é imprescindível?
Cagliari – Em uma reforma, ninguém ganha e muitos perdem. No caso desse acordo, nenhuma mudança sugerida é necessária. Poderíamos ficar com o que tínhamos e nada mudaria. A grande confusão veio quando resolveram transformar a ortografia em lei, um absurdo tão grande quanto o fato de terem tornado oficial uma nomenclatura gramatical brasileira. Uma aberração sem tamanho.

Agência FAPESP – A maior resistência à reforma vem de Portugal. Por que isso ocorre? O senhor vê, como alguns, uma “brasilificação” da língua com essa reforma?
Cagliari – Estive em reuniões em Portugal com acadêmicos e escritores que discutiam a unificação. Eles acham a reforma totalmente desnecessária. De fato, esta reforma, ao contrário da feita na década de 1910, representa um gesto brasileiro contra a tradição da língua. Para uma pessoa culta, a escrita traz as marcas da pátria, da história, e isso fica prejudicado por leis que pretendem que todos sejam iguais.

Agência FAPESP – A padronização tornará os livros atuais obsoletos?
Cagliari – Isso é um problema que decorre, como todos os outros, de transformar a ortografia em lei e não da reforma ortográfica em si mesma. Alguém poderia propor alterações na grafia das palavras e, se os usuários passassem a aderir, com o tempo viraria tradição, como sempre ocorreu. Se não for oficial, a ortografia pode aparecer de modos diferentes e os livreiros não precisam jogar nada no lixo. Nem precisaríamos jogar fora os livros escolares de nossas bibliotecas escolares porque estão com a ortografia errada.

Agência FAPESP – Quem sofrerá maior impacto com a reforma?
Cagliari – Os literatos sofrerão mais, porque a ortografia também pode ter valor estilístico, como vemos em autores como Saramago. Por outro lado, em um país em que grande parte da população não lê, uma reforma ortográfica vem perturbar apenas os letrados.


Agência FAPESP – Tivemos reformas em 1919, 1943 e 1971. O português muda demais?
Cagliari – Poderíamos ter seguido o exemplo das línguas francesa e inglesa que, apesar da longa tradição de brigas por reformas ortográficas, se mantêm há séculos sem grandes mudanças. Mas entramos em um caminho errado. Isso ocorre porque, para entender a ortografia, precisamos saber que a leitura não é transcrição fonética nem semântica, portanto basta reconhecer na escrita o que o usuário fala. A ortografia foi criada para neutralizar a variação lingüística: não interessa se você fala “tia” ou “tchia”. A escrita é uma só: tia. A letra “A” representa o som de todos os “As” falados em todos os dialetos em todas as palavras da língua. Assim, na palavra “acharam”, que se pronuncia “acharu”, o “A” tem o som de “U”.


Agência FAPESP – Quanto tempo uma reforma dessas deve levar para ser assimilada pelas populações?
Cagliari – Em relação à reforma de 1919, constatamos que somente na segunda metade do século 20 as pessoas aderiram de fato. E nem todas. As publicações só adotaram a reforma 50 anos depois. Nas reformas posteriores, a intervenção do Ministério da Educação nas escolas, nos livros e nas editoras foi ameaçadora, como é hoje: ou tudo ou nada. Com relação às pessoas cultas, a reforma começa logo, por força social. Na escola, é um grande problema para os professores e menor para os alunos, que não precisam modificar o que sabiam antes. Para o povo, pouco interessa. Muitos continuarão escrevendo fora de qualquer padrão tradicional ou imposto por lei, mas de acordo com hipóteses que fazem de como podem escrever para alguém ler e entender o que eles querem dizer.

26 de agosto de 2007

SÓ PARA COMPLEMENTAR

O post de ontem traz um pequeno texto sobre Norah Jones e links para o download de Fells Like Home (2004), hoje, no entanto, posto o clipe da primeira faixa desse álbum, Sunrise.

Ainda no post de ontem você pode ouvir e acompanhar a letra de três canções do trabalho de Jones, para tanto é só ir no próprio post e logo abaixo do título das canções tem um pequeno player, é só escolher a canção que quer ouvir primeiro, dar play e esperar carregar - o que não demora muito (só se sua conexão for discada).

O clipe é bem "angelical", com um cenário de fundo que lembra, apenas lembra (especialmente a Lua), o filme dos irmãos Lumiere produzido no início do século XX, que não recordo o nome no momento, que tem por roteiro a chegada do homem a lua. Na série dirigida pelo Tom Hanks sobre o projeto Apolo, exibida no canal HBO, tem um capítulo que é quase exclusivamente voltado a essa película.

Bem, deixando de lero-lero, deliciem-se com a voz e a música de Norah Jones.

NORAH JONES — Sunrise

LEIAM O POST DE ONTEM

25 de agosto de 2007

SINTO-ME EM CASA


O álbum que disponibilizo aos leitores do Fronteiras hoje é Feels Like Home, da jazzista estadunidense Norah Jones. A sonoridade desse trabalho, o terceiro da carreia da jovem cantora, traz a mistura do Piano Jazz (estilo predominante) com o Country/Folk de bom gosto, sem exageros. A suavidade da voz de Jones compõe um quadro dos mais interessantes e belos para a audição, vale a pena conferir.

Confesso que ainda não ouvi os outros álbuns dela, mas pelo que li parecem ser muito bons, inclusive Norah é figurinha carimbada nos Grammys, ela já ganhou vários desde seu disco de estréia e numa única edição chegou a levar 8 prêmios, inclusive o de melhor artista estreante.

A qualidade do áudio para quem for fazer o Download é de 256Kbps em formato mp3. O arquivo com o álbum completo está dividido em duas partes por que o 4Shared só aceita arquivos que ocupem até 50 MB. A parte 1 ocupa 50 MB e a parte 2 ficou um pouco menor com 36,2 MB.

Acho que é isso, aproveitem o som

FAIXAS:
1. Sunrise
2. What Am I To You?
3. Those Sweet Words
4. Carnival Town
5. In The Morning
6. Be Here To Love Me
7. Creepin' In
8. Toes
9. Humble Me
10. Above Ground
11. The Long Way Home
12. The Prettiest Thing
13. Don't Miss You At Al

Os álbuns de Jones lançados até o momento são:
First Sessions (2001)
Come Away With Me (2002)
Feels Like Home (2004)
Not Too Late (2006)


Rolando no Twango

Sunrise

Sunrise, sunrise
Looks like mornin' in your eyes
But the clocks held 9:15 for hours
Sunrise, sunrise
Couldn't tempt us if it tried
'Cause the afternoon's already come and gone

And I said hoo...
To you

Surprise, surprise
Couldn't find it in your eyes
But I'm sure it's written all over my face
Surprise, surprise
There was something I could hide
When I see we made it through another day

And I said hoo...
To you

Now good night
Throw its cover down
On me again
Ooh and if I'm right
It's the only way
To bring me back

Hoo...
To you
Hoo...

Humble Me


Went out on a limb
Gone too far
I broke down at the side of the road
Stranded at the outskirts and sun's creepin' up
Baby's in the backseat
Still fast asleep
Dreamin' of better days
I don't want to call you but you're all I have to turn to

What do you say
when it's all gone away ?
baby I didn't mean to hurt you
truth spoke in whispers will tear you apart
no matter how hard you resist it
it never rains when you want it to
You humble me Lord
You humble me Lord
I'm on my knees empty
You humble me Lord
You humble me Lord
Please, please, please forgive me

Baby Teresa she's got your eyes
I see you all the time
When she asks about her daddy
I never know what to say

Heard you kicked the bottle
And helped __ build the church
You carry an honest wage
Is it true you have somebody keeping you company ?
What do you say
When it's all gone away?

Baby I didn't mean to hurt you
Truth spoke in whispers will tear you apart
No matter how hard you resist it
It never rains when I want it to

You humble me Lord
You humble me Lord
I'm on my knees empty
You humble me Lord
You humble me Lord
Please, please __ forgive me

Above Ground

Underground I'm waiting
Just below the crowded avenue
Watchin' red lights fading out of view
Oh the air feels heavy
Everything just passes by
And I think that I'm a little shy

Meet me outside above ground
I see you on your way
I'll be with you someday, someday

Drawing lines above my head
But the fan keeps spinning over me
Just my thoughts to keep me company

Now I know I'm ready
Pour the night into a glass
Can I sip it slow and make it last

Meet me outside above ground
I see you on your way
I'll be with you someday, someday

Meet me outside above ground
I see you on your way
I'll be with you someday, someday

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24 de agosto de 2007

PASSEIO FORA DO CORPO

“Por meio de realidade virtual, cientistas europeus simulam pela primeira vez uma experiência extracorpórea e sugerem explicação para o fenômeno normalmente considerado produto de ilusão”


Para o blog não ficar desatualizado decidi postar periodicamente noticias interessantes sobre Ciência, em outras palavras, o Fronteiras no Tempo vai começar a abrigar, sistematicamente, textos de Divulgação Científica retirados de fontes diversas na tentativa não apenas de mantê-lo atualizado, mas de acrescentar novos elementos a página. O blog não deixará de abrigar os vídeos do Youtube, as narrativas, nem coisa parecida, mas ganhará mais um elemento.
Espero que apreciem a Matéria



Agência FAPESP – Com o uso de realidade virtual para misturar sinais sensoriais que chegam ao cérebro, cientistas europeus induziram voluntários a experiências extracorpóreas, sugerindo uma explicação científica para o fenômeno normalmente considerado produto de ilusão ou de ficção.
A visão de seus corpos transferidos para outro local – graças ao equipamento – associada à sensação de serem tocados simultaneamente fez com que voluntários sentissem que estavam se movendo fora de seu corpo físico, de acordo com dois artigos publicados na edição desta sexta-feira (24/8) da revista Science.
Uma desconexão entre os circuitos cerebrais que processam esse tipo de informação sensorial pode ser responsável por algumas das experiências extracorpóreas, segundo os autores.
“Estamos interessados nas razões pelas quais sentimos que cada ‘eu’ está dentro de nossos corpos, ou, em outras palavras, por que temos uma experiência intracorpórea”, disse o autor de um dos estudos, Henrik Ehrsson, da Universidade College London, na Inglaterra, e do Instituto Karolinska, na Suécia.
Tanto Ehrsson como a equipe liderada por Olaf Blanke, da Escola Politécnica Federal de Lausanne e do Hospital Universitário de Genebra, ambos na Suíça, utilizaram câmeras e óculos de realidade virtual para exibir aos voluntários imagens de seus próprios corpos a partir da perspectiva de alguém posicionado atrás deles. Ao mesmo tempo, os pesquisadores tocaram os corpos dos voluntários, tanto os reais como os virtuais.
Os voluntários do estudo de Ehrsson viram, por meio dos óculos especiais, imagens gravadas por câmeras. No trabalho de Blanke e equipe, o vídeo foi convertido em simulações computacionais semelhantes a holografias.
O primeiro grupo movimentou um pino de plástico logo abaixo das câmeras, enquanto os voluntários eram tocados no peito no ponto correspondente. Questionários feitos em seguida indicaram que os voluntários sentiram que estavam sentados no local em que estavam as câmeras e observavam diante de si um manequim ou um corpo que pertenceria a outra pessoa.
“Esse experimento sugere que a perspectiva visual de primeira pessoa é criticamente importante para a experiência intracorpórea. Ou seja, sentimos que nosso ‘eu’ está localizado onde estão nossos olhos”, disse Ehrsson.
O cientista sueco também fez os voluntários olharem um martelo que era balançado em direção a um ponto abaixo da câmera, como se estivesse batendo em uma parte do corpo virtual fora do campo de visão.
Medições de condutividade da pele, que refletem respostas emocionais como o medo, indicaram que os voluntários sentiram que seu “eu” havia deixado o corpo físico e se movido para o corpo virtual.
Para os pesquisadores, casos que envolvem a sensação de sair do corpo e vê-lo a partir de uma perspectiva externa podem estar relacionados, em parte, com o uso de drogas, ataques epiléticos e outros tipos de distúrbios cerebrais.
Ao projetar a consciência de uma pessoa em um corpo virtual, as técnicas utilizadas nesses estudos poderiam, segundo os autores dos estudos, ser úteis para treinamento em delicadas tarefas de “teleoperação”, como a realização remota de cirurgias.
As conclusões das pesquisas também poderiam ajudar a eliminar o estigma imputado a pacientes de distúrbios neurológicos que têm essas experiências, freqüentemente atribuídas a uma imaginação ativa ou a algum tipo de fenômeno paranormal. De acordo com os pesquisadores, os estudos têm potencial de ajudar a resolver antigas questões sobre como o ser humano percebe seu próprio corpo.
Disfunções cerebrais
A equipe de Blanke utilizou uma instalação semelhante para criar experiências extracorpóreas. Nesse caso, as imagens em vídeo foram convertidas em simulações tridimensionais e holográficas.
Depois da experiência de realidade virtual, um pesquisador vendava os voluntários e os conduzia mais para trás. Quando era pedido que voltassem à posição inicial, eles demonstravam tendência a se dirigir ao local em que haviam visto seu corpo virtual.
Os dois estudos concluíram que o “conflito multissensorial” é o mecanismo-chave na base da experiência extracorpórea. “As disfunções do cérebro que interferem nos sinais de interpretação sensoriais podem estar na origem de certos casos clínicos de experiência extracorpórea. No entanto, não sabemos se todas essas experiências são provenientes das mesmas causas”, disse Ehrsson.
Além dos sinais sensoriais, de acordo com Blanke, a consciência do corpo poderia também implicar uma dimensão cognitiva: a capacidade de distinguir o próprio corpo de outros objetos.
Sustentando essa idéia, os autores relataram que, quando os voluntários viram uma coluna de tamanho humano, no lugar da imagem de um corpo humano, puderam voltar a seu local inicial, indicando que a ilusão de experiência extracorpórea não ocorria mais.
“A consciência do corpo parece requerer não apenas o processo ‘ascendente’ de correlacionar a informação sensorial, mas também o conhecimento ‘descendente’ do corpo humano”, disse Blanke.
Algumas experiências extracorpóreas que haviam escapado anteriormente a qualquer explicação científica poderiam estar relacionadas com uma perceção corporal distorcida, de acordo com Blanke. Segundo ele, os sistemas de realidade virtual talvez poderão trazer novas respostas no futuro.
“Tivemos décadas de pequisa intensa sobre a percepção visual, mas não se avançou muito sobre a percepção corporal. No entanto, isso poderia mudar, agora que a realidade virtual oferece um meio mais sistemático para manipular a percepção do corpo inteiro e para testar de uma nova forma as experiências extracorpóreas, assim como a consciência corporal”, disse o cientista suíço.
Os artigos The Experimental induction of out-of-body experiences, de Henrik Ehrsson, e Video ergo sum: Manipulating bodily self-consciousness, de Olaf Blanke e outros, podem ser lidos por assinantes da Science em www.sciencemag.org.

20 de agosto de 2007

SCIELO PERSONALIZADO

Recebi uma notícia muito interessante por meio do boletim da agência FAPESP e decidi divulgá-la por aqui também na integra.
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20/08/2007
Por Thiago Romero
Agência FAPESP – Oferecer novos recursos de busca para o acesso integrado às coleções, por meio de diferentes tipos de filtros e categorizações, além de disponibilizar uma série de inovações – como os serviços personalizados, em que o usuário poderá receber artigos, notícias e outros serviços de acordo com seus temas de interesse.
Essas são algumas das novidades do novo portal do programa SciELO (Scientific Electronic Library Online), que foi lançado oficialmente na cerimônia de comemoração de seus dez anos, na quinta-feira (16/8), em São Paulo e estará disponível nos próximos dias.
A biblioteca eletrônica, que no Brasil é mantida pelo Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), permite acesso gratuito a artigos de dez coleções em oito países – Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Portugal, Espanha e Venezuela –, além de duas coleções temáticas nas áreas de saúde pública e ciências sociais.
“A principal novidade é a recuperação unificada de artigos, independentemente de qual coleção eles façam parte, o que era algo que representava dificuldades na versão anterior do portal”, disse Renato Murasaki, coordenador do Escritório de Projetos da Bireme, à Agência FAPESP. “A partir de agora, será possível fazer uma única expressão de busca e trazer, em uma mesma interface, artigos de todas as revistas disponíveis na biblioteca.”
São mais de 130 mil artigos em 452 títulos de periódicos certificados. “Como todas as coleções dialogam entre elas no novo portal, teremos a possibilidade de gerar indicadores integrados sobre a rede como um todo, sejam de acesso ou de citações, por exemplo, e não mais indicadores isolados por coleção ou revista. Isso é o que estamos chamando de visão sistêmica da rede”, explicou.
Ao se cadastrar gratuitamente, o usuário recebe um login e uma senha e, para o acesso aos serviços personalizados, o sistema também solicita a elaboração de um perfil no qual devem ser indicados os principais temas de interesse. Cada usuário pode cadastrar até três perfis distintos.
Entre os novos serviços personalizados estão “Minha Coleção”, que permite armazenar artigos de interesse e atribuir classificação de um a três estrelas, e “Meus Alertas”, em que é possível monitorar os indicadores do artigo clicando nos itens “Avise-me quando citado” e “Envie-me estatísticas de acesso”.
“Esses serviços personalizados permitem disseminar informações de maneira seletiva. A partir de um perfil cadastrado, serão oferecidos artigos que tenham relação com as áreas de conhecimento de preferência do usuário, sem que ele tenha que procurá-los nas coleções”, disse Murasaki.
Outros dois aplicativos são “Minhas Notícias”, que permite ao usuário adicionar endereços de sites por RSS – tecnologia que permite receber notícias automaticamente e em tempo real –, e “Meus Links”, que oferece a possibilidade de salvar e organizar os endereços de web preferidos por ordem de relevância.
As informações disponíveis no portal também podem ser acessadas por meio de buscas de autores, assuntos, revistas, palavras-chave, cidade ou país, e o usuário pode visualizar o artigo em formato pdf ou xml, conhecer o currículo Lattes dos autores, saber como citar o estudo, visualizar as estatísticas de acesso, acessar as referências bibliográficas do artigo e, por fim, enviá-lo por e-mail.
Para Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, o novo portal dará maior visibilidade para a boa ciência feita nos países da América Latina e em Portugal e Espanha.
“Até então, o SciELO, apesar de permitir acesso livre aos trabalhos, o que é o mais importante, não oferecia muitas funções aos usuários. A partir de agora, a comunicação entre os cientistas será mais facilitada. Os usuários poderão criar sua própria coleção e ainda compartilhar artigos com outros pesquisadores”, destacou.
Mais informações sobre o novo portal: www.scielo.org

13 de agosto de 2007

VOLKSWAGEN “OCULTA TRÁGICO ACIDENTE”

Durante a gravação do novo comercial do Passat na Europa ocorreu um grave acidente. O carro ia normalmente por uma estrada e uma pessoa desavisada estava no caminho e acabou sendo atropelada. A peça publicitária, após esta fatalidade, foi suspensa e a empresa fez de tudo para abafar o caso, mas o vídeo acabou vazando e foi parar no Youtube. Preste muita atenção para ver/ouvir o momento exato desse terrível acidente.

Atropelamento na Curva 3



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Ah, eu também cai.

10 de agosto de 2007

“HASTA LA VISTA BABY JESUS”

Esse vídeo encontrei no orkut da minha irmã, que escreve em seu blog A Arte aqui e lá. O pequeno filme/trailer conta a história da tentativa de T-800 de salvar Jesus Cristo ao retornar ao oriente médio na antiguidade.

O ator que faz o T-800 é parecido com o Arnold Swarchenegger, só que bem mais magro, porém, a interpretação é idêntica, especialmente a voz. Estou rindo até agora com as cenas e os diálogos como esse aqui:

T-800: Vem comigo, se quiseres viver.
Jesus: O que estás a fazer?
T-800: Eles iam prender-te.
Jesus: Eu sei.
T-800: E Crucificar-te
Jesus: Supostamente isso deve acontecer.
T-800: És o que? Um doido por castigos?

A seqüência da última ceia também é muito boa.

“Este natal, os mansos herdarão a ação”

Não perca tempo, dê play e morra de rir.

Exterminador do Futuro IV - O Resgate de Cristo (legendado em Português)


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9 de agosto de 2007

SE FOR PRA MIM, DIGA QUE NÃO ESTOU

Há mais ou menos 1 ano atrás assisti a um vídeo do Youtube postado no Rapadura Açucarada e no mês passado, durante minha viagem ao Sul do país, comentei sobre ele com meu amigo Beraba - enquanto aguardávamos mais de 3 horas e meia para fazer o Check Inn no aeroporto Salgado Filho (POA), no dia 21 de julho. Procurei novamente o vídeo no R.A. e não o encontrei, então decidi ir direto a fonte. Achei-o rapidamente e decidi coloca-lo por aqui.

O vídeo é uma pequena peça de humor sobre um tipo especial de Ringtone, vale a pena assistir, pois é MUITO HILÁRIO.

Divirtam-se...

Ringtones (Robert’s Toot-Tone)



E na onda de humor vejam esse anúncio bem peculiar que encontrei no orkut




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8 de agosto de 2007

TRAGÉDIA PELUCIANA

O post de número 50 do Fronteiras no Tempo traz mais um vídeo do amigo Elinaldo Meira, Tragédia Peluciana. O filme de 1 minuto conta uma entre muitas possibilidades de história de amor em uma narrativa acelerada com ar e desfecho tragicômico.

Tragédia Peluciana foi exibido no Canal Brasil (NET-Globosat), em 6 de maio de 2007, e foi recentemente “youtubado” por seu autor/diretor e agora pode ser visto por aqui também. A direção de arte ficou a cargo de Emília Carmineti.

Espero que apreciem

Tragédia Peluciana


Vídeo. 2006. 1minuto. Direção, Roteiro, Edição: Elinaldo Meira – Direção de Arte: Emília Carmineti.

Trecho da legenda:

Nei e Rui se conheceram, se olharam, se beijaram... se amaram.
Rui era complexo, gostava de maconha, de pó, de álcool.
Nei cuidava de Rui.
Deu-lhe uma gravata, um sonho de valsa, sua alma e seu corpo virginal.

Rui tornou-se elegante. E numa festa chique conheceu a Alex Steinberg. E a ele se deu... libidinosamente.

Nei soube.

Nei viu!

Nei os matou.

(...)

Para ver outros trabalhos do Elinaldo disponibilizados no YouTube CLIQUE AQUI


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6 de agosto de 2007

VOCÊ ESTAVA MAIS QUERENDO ERA ME VER PASSAR POR AÍ...


Em 2001, a roqueira Cássia Eller realizou um de seus últimos trabalhos em vida, o Acústico MTV. Nesse álbum, que foi muito popular na época, diga-se de passagem, a interprete “desplugou” as guitarras e os outros instrumentos elétricos e realizou, em minha opinião, um dos melhores acústicos da Mtv brasileira.

O grande parceiro de Cássia nesse álbum foi o então Titã, Nando Reis, compositor de mão cheia. As músicas dele na voz dela ficaram ainda melhores, é só conferir “Luz dos Olhos” (uma de minhas favoritas) e “Segundo Sol”, que chegou a ser música de trabalho de outro disco da cantora. A CD ainda traz uma versão de “Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band”, de vocês sabem quem, e “Top Top”, dos Mutantes.

No lado direito deste blog na “seção” música você poderá escutar Sgt Peppers na versão original e na versão de Cássia e também, de quebra, outra de minhas canções prediletas do Cd “Nós” (a letra está logo abaixo para quem quiser acompanhar).

A qualidade do áudio para quem for fazer o Download é de 192Kbps em formato mp3. O arquivo com o álbum completo está dividido em duas partes por que o 4Shared só aceita arquivos que ocupem até 50 MB. A parte 1 ocupa 49,078 KB e parte 2 ficou um pouco menor com 32,212 KB.

FAIXAS

01. Non, Je ne Regrette Rien
02. Malandragem
03. E.C.T.
04. Vá Morar com o Diabo
05. Partido Alto
06. Primeiro de Julho
07. Luz dos Olhos
08. Todo Amor que Houver Nesse Vida
09. Queremos Saber
10. Por Enquanto
11. Relicário
12. Segundo Sol
13. Nós
14. Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band
15. Da Esquina
16. Quando a Maré Encher
17. Top Top

Ano de lançamento: 2001



Rolando no Twango

Nós

Eu, sei que me disseram por aí
E foi pessoa séria quem falou
Você tava mais querendo
Era me ver passar
(me ouvir cantar) por aí
eu, sei que você disse por aí
que não tava muito bem,
seu novo amor
você tava mais querendo
era me ver passar por aí
pois é, esse samba é pra você
oh, meu amor
esse samba é pra você
que me fez sorrir
que me fez chorar
que me fez sonhar
que me fez feliz
que me fez amar
Pois é, esse samba é pra você
Oh, meu amor
Esse samba é pra você
Pra você sorrir
Pra você chorar
Pra você sonhar
Pra você feliz
Pra você amar

FICO POR AQUI

1 de agosto de 2007

EXUS, PAIS DE SANTO E OUTROS BADULAQUES


Bem, hoje posto mais um texto do colaborador Manuel Cunha Pinto. A maioria dos textos dele postados aqui no Fronteiras no Tempo já foram publicados em outros veículos, como o jornal da faculdade onde ele estuda (IMESB-VC), em Bebedouro-SP, e no jornal de sua cidade, Monte Azul Paulista. Esses escritos foram gentilmente enviados para mim para que eu desse minha apreciação, como gostei perguntei a ele se poderia publicá-los aqui, o que aceitou de bom grado. Aproveito a oportunidade para agradece-lo por isso.

O texto fala de um tal João das Cordas, jardineiro/vidente, que vive no interior de São Paulo de maneira bem interessante, pois cruza insistentemente e acredito intencionalmente a fronteira entre o texto jornalístico objetivo e a crônica, chegando assim a um bom resultado, conduzindo o leitor suavemente de um cenário de filme argentino (no bom sentido) às contingências cotidianas bem brasileiras. Vale a leitura.

Seu João: além da lenda do cordão
Manuel Cunha Pinto
É fim de uma tarde de verão na cidade de Monte Azul Paulista, nordeste do estado. Apesar do clima quente sugerir uma atmosfera de alegria e vida, dois jovens sofrem. O primeiro acredita que, dois dias antes, um espírito mal invadiu seu apartamento em Ribeirão Preto, a cem quilômetros dali. Desde então, diz sentir-se estranho, inquieto, assombrado por pensamentos mórbidos. O segundo, já conhecido na região por seu temperamento destrutivo e arruaceiro, tem um problema mais complicado. Usuário de drogas, acaba de separar-se da esposa, com quem casou há alguns meses, quando acendeu as esperanças de sua família para uma nova vida. Mesmo com uma expressão facial nula, nota-se que há algo de errado com ele. É como naqueles desenhos animados nos quais um personagem, tomado pelo azar, carrega sobre si uma nuvem escura de tempestade.

Na frente daquela casa aos pedaços, certamente a em pior estado da rua, junto dos dois rapazes há um terceiro, que, além de uma dificuldade com matemática, não carrega consigo nenhum problema sério. É amigo de ambos e só está lá para testar o poderio sobrenatural de um senhor que, dentro da casa, atende uma mulata de seus trinta e poucos anos. Depois de uma espera de cerca de dez minutos, a mulher sai e os três entram. O senhor pede que sentem. Então seus olhos azuis fixam um horizonte imaginário e ele invoca proteções espirituais, as quais ele chama de correntes, que são muito democráticas, geograficamente falando. Tem correntes baianas, africanas, indianas, entre outras. Protegido, abençoa dois dos rapazes num ritual já famoso: passa em volta de seus pescoços uma corda idêntica àquelas que vaqueiros usam nos campos, só que menor, e ordena que qualquer força maligna ali presente suma. Como num passe de mágica, os rapazes saem de uma espécie de transe e têm as expressões serenas. O único a não ser bento, justamente o que fingia ter algum problema, parece impressionado. Olha para o velho e diz: “Mas o senhor não me benzeu...”, e ele então responde: “Deve ser porque você não tem nada”.

Tente achar no Brasil um nome mais comum que este: João. Tudo bem, não se martirize, é realmente um nome bem popular. Agora pense no sobrenome Santos. Mas agora tenha mais cuidado para não se enganar. Na carteira de identidade deste monteazulense nascido em 1926, o nome muito simples é igualmente sugestivo e cercado de mistérios e experiências pouco comuns. Seu João do Cordão, como é conhecido, por causa do método de trabalho, nasceu outra pessoa. E foi se transformando, feito peça de teatro de um ator só, em várias outras durante a vida. Era uma criança agitada, mais do que o normal até para crianças agitadas. Trabalhou com gado na adolescência, até os vinte e dois anos. Então foi para a capital São Paulo, onde trabalhou durante dezoito anos no ramo de venda de carros. Oito anos na Ford e mais dez na General Motors. Até aí, Seu João desconhecia seus dotes mediúnicos, o que foi uma pena, pois poderia muito bem ter sido o vendedor mais fenomenal da história. É que, nos tempos atuais, uma grande parte das cerca de 60 pessoas que são atendidas por ele diariamente vem pedir conselhos financeiros, e isso inclui a compra de automóveis, propriedades rurais e afins.

Cansado da vida sufocante de São Paulo, o médium que até então não era, resolveu voltar para Monte Azul. Foi quando começou a tomar comunhão, e o “coisa-ruim” que insistia em aparecer-lhe na vista desde que era pequeno sumiu. Recebeu um recado divino que lhe incumbia a missão de orientar as pessoas. E a partir daí foi construindo a carreira que lhe permite dizer que é o mais conhecido guia espiritual da cidade interiorana de aproximadamente vinte mil habitantes. Além dos conselhos financeiros já citados, Seu João ajuda pessoas com problemas de coluna, outras que se dizem possuídas por exus, e também mocinhas aflitas para saber se seus namoros vão transformar-se em casório. Neste caso a metodologia é diferente. Primeiro ele pede que a garota feche suas mãos suadas de nervosismo, cada uma segurando numa extremidade da corda. Em seguida pede que pense no destinatário do seu amor. Então saúda alguma divindade e joga o cordão no pavimento vermelho e quebradiço de sua casa. Pronto: está estampada na forma que se posta a corda a sorte do casal, seja ela boa ou má. “Não dá para explicar a leitura”, diz Seu João, que já foi, ele próprio, vítima das desventuras do amor. Sua mulher o traiu e o casamento acabou. Desiludido, não gosta muito de falar a respeito. Mas garante que a amargura não influencia no resultado das consultas sentimentais. “Diferente de muitos que vêm aqui, eu não digo nada além da verdade”, garante.

Como não poderia deixar de ser numa vida recheada de reviravoltas, há vinte e dois anos Seu João aprendeu outro ofício. Porque, no final das contas, não cobra nada para exercer a atividade espiritual. Virou jardineiro, trabalho que exerce diariamente das sete às quinze horas, para depois se concentrar como guia até anoitecer. Afirma com orgulho que nunca deixou caso algum sem resolução, mesmo os mais difíceis. “Uma vez veio uma mulher tão possuída que subia pelas paredes e dava cambalhotas desta altura”, diz, indicando com a mão direita algo perto de um metro e noventa. Já para o público, a opinião sobre a atuação de Seu João é tão diversa quanto sua vida. “Ele cuida do jardim lá de casa, deixa sempre lindo” diz uma moça gordinha. “Mas, por outro lado, ele me falou há algum tempo que eu ia arrumar namorado logo, e até agora nada”, ressalva, com um ar de desapontamento. Outra, já bem mais velha, lamenta por não ter consultado o guia antes do casamento. “Resolvi morar com um cara que logo revelou ser outra pessoa, um bêbado e maconheiro. Acabou com minha vida. Quem sabe se eu tivesse vindo no tiozinho antes, não seria diferente?”, diz, com os olhos baixos. Seu João é assim, uma pessoa confiante e misteriosa, que ao fechar a porta para enfim descansar, atesta com conhecimento de causa e um bilhete da Mega Sena no bolso da camisa: “Todo mundo pode mudar a vida, o conselho é só um empurrãozinho”.

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