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18 de julho de 2011


Num lampejo, enquanto olhava em seus olhos, pensou em café. Imaginou que a vida em muitos momentos se apresentava a ele como uma chícara de café, doce ou amarga, a depender da situação, da lua, da posição das estrelas do céu ou de algo que não conseguia definir. Muitos momentos poderiam ter a sua duração comparada com a de uma chícara de café quente, que permanecia em contato com os lábios por momentos fugazes e por fim terminava. Achou a comparação boba e decidiu que nunca a colocaria no papel.

O impressionava a maneira como ela correspondia ao seu olhar, como o sustentava durante minutos, enquanto permaneciam ali, parados, contemplando-se. Também se lembrou do livro na cabeceira de sua cama, onde os personagens teciam diálogos mentais solitários, projetando o que deveria ser dito, mas não era. Uma carta de intensões secreta, a qual nenhum dos lados possuia acesso; assim era o texto de Cristovão Tezza.

Com eles não era isso que acontecia. Havia sim um diálogo, uma conversa profunda, sem palavras, sem a necessidade de cordas vocais ou do mexer dos lábios. Diziam-se coisas que não verbalizavam. Talvez não existissem as palavras, ou talvez as guardassem...

Naquele mesmo fim de semana assistiria a um filme que lhe faria relembrar a situação: “Os olhos falam muito. É melhor que se calem; às vezes é melhor não olhar.”

Gostava do cinema argentino, pelo pouco que conhecia; mas a frase, apesar de remetê-lo aqueles momentos cujo gosto ainda carregava, não estava de acordo com o que o seu sentido mais profundo lhe dizia. Não se pouparia do olhar, queria ver e ser visto. Queria que ela buscasse ali, em suas órbitas castanhas como as dela, aquilo que carregava há tempos e que tentava lhe entregar como um livro de viagens que registrava os seus passos, desde o primeiro momento que se encontraram. Já fazia uma década. Mas uma vez, a vida como um chícara de café; rápida intensa, com um um sabor marcante ao paladar, podendo ser agressivo ou doce. Mas uma vez, fugiu da comparação... definitivamente, não a escreveria.

“Estrelas” pensou consigo mesmo. Seria isso que diria a ela em momento propicio. Ela entenderia a imensidão dos significados contidos naquela palavra, utilizada já em seus primeiros momentos.

“Parece que seu olhar me invade, que entra aqui na minha cabeça e toma os meus segredos. Parece que você já sabe tudo sobre mim” Ela havia dito faziam poucas horas. Não era aquilo, pensava naquele momento. Não queria o que ela não quisesse dar. A ele, só interessava compartilhar o que ela lhe oferecesse de bom grado.

“No que você está pensando?”

“Em café e estrelas...”

E imaginava o que ela lhe oferecia por trás daqueles olhos. Era o olhar que ela lhe dava que queria para si, que queria contemplar, saber, conhecer.

“Fico imaginando o que o seu olhar quer dizer.” Perguntaria horas depois, mais uma vez olhando-a nos olhos.

“O que você acha que ele quer dizer?”

Torcia para que aquele momento não acabasse tão logo como uma chícara de café; torcia para que se estendesse como o impressão que fica gravada nas papilas gustativas após o primeiro gole quente.

“Acho que você gosta de mim.”

P. R. O.

Um comentário:

  1. Muito bom, Paulo! Foi como estar na mente dele.
    E Adorei a comparação.

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